O Carnaval ocupa as ruas de São Luís com música, dança e diversão. Para muitas mulheres, porém, a festa ainda é atravessada por um sentimento conflituoso: a vontade de viver a liberdade do período e a necessidade constante de estar em alerta. Elas constroem estratégias para se proteger enquanto órgãos públicos e coletivos intensificam campanhas de enfrentamento ao assédio.
“Não existe liberdade plena pra ninguém, mas pra nós, mulheres, a sociedade é ainda mais insegura. Muitos homens acham que têm direito sobre nossos corpos”, afirma Susan Lucena, diretora da Casa da Mulher Brasileira, em São Luís. Para ela, o Carnaval evidencia uma contradição antiga: o corpo feminino, mais exposto pela própria dinâmica da festa, segue sendo alvo de julgamentos e violações. “Fantasia não é convite. E não é não.”
A diretora reconhece que, apesar do clima festivo, não é possível baixar a guarda. “Queria poder dizer que sim, que dá para curtir sem estar em alerta, mas nem em São Luís nem em qualquer lugar. É preciso atenção com bebidas alcoólicas e com o chamado ‘boa noite, Cinderela’”, alerta. Ao mesmo tempo, ela destaca o reforço no policiamento nos circuitos carnavalescos como uma tentativa de conter excessos e garantir resposta rápida.
Na Casa da Mulher Brasileira, os relatos que chegam durante o Carnaval refletem uma realidade complexa. A maioria das denúncias segue relacionada à violência doméstica e familiar, abrangida pela Lei Maria da Penha. Ainda assim, há um aumento de casos de violência sexual neste período — embora pouco denunciados. “Os dados mostram que, em média, apenas 8,5% desses casos chegam a ser formalmente denunciados”, explica Susan.
Quando o assédio vira “brincadeira”
A naturalização do assédio como parte da folia ainda persiste, sobretudo entre homens. “A gente ainda ouve que ‘não pode mais nem paquerar’. Mas o jogo está virando”, avalia. Segundo ela, o temor da punição tem ajudado a frear importunações sexuais. Desde 2018, práticas antes tratadas como comuns passaram a ser crime, como passar a mão no corpo da mulher sem consentimento ou forçar beijos — as formas de assédio mais frequentes registradas no Carnaval.
As denúncias atingem mulheres de todas as idades, mas o público jovem é o mais vulnerável. “Quem pratica esse tipo de crime se alimenta da impunidade e busca presas mais fáceis”, afirma. O medo de retaliação, de perseguição e de enfrentar procedimentos policiais ainda impede muitas mulheres de denunciar.
Estratégias coletivas de proteção
Na ausência de uma segurança plena, as próprias mulheres criam redes de cuidado. Andar em grupo, evitar locais escuros e pouco movimentados, observar as bebidas e combinar pontos de encontro são práticas recorrentes. “Ir em grupo ainda é uma das principais formas de proteção”, reforça Susan. “Também orientamos a usar bolsas tipo pochete, garrafas com tampa e manter o aplicativo Salve Maria Maranhão instalado, que permite acionar a polícia por georreferenciamento.”
Quando o assédio acontece em meio à multidão, a recomendação é clara: não se colocar em risco. “Procure o policiamento mais próximo para a condução do agressor, identifique testemunhas e verifique se há câmeras no local”, orienta. Se não houver agentes por perto, o primeiro passo é sair da situação de perigo e buscar um local seguro.
Campanhas e rede de apoio na folia
Neste Carnaval, a Casa da Mulher Brasileira atua com ações de conscientização diretamente nos circuitos, em parceria com órgãos da rede de enfrentamento à violência contra a mulher e com a Secretaria da Mulher. Também estão previstas ações educativas em pontos estratégicos da cidade, inclusive com a Polícia Rodoviária Federal na entrada de São Luís.
Além do atendimento presencial 24 horas, funcionam canais de denúncia durante os dias de folia: 190 (polícia), Ligue 180, Aplicativo Salve Maria Maranhão e Atendente virtual Juçara: (98) 99100-6166 (WhatsApp).
Para Susan Lucena, os avanços dos últimos anos são reais. “Nossas legislações e serviços evoluíram muito. A Casa da Mulher Brasileira é prova disso. As mulheres estão mais conscientes, mais donas de si e aceitando menos violações.” Ainda assim, ela reconhece que as estratégias de autoproteção revelam um problema longe de ser resolvido.
“Nossos corpos, nossas regras”
A principal mensagem da Casa da Mulher para este Carnaval é direta: “Vista sua fantasia e caia na folia. Não tolere violações. Se for preciso, use seus direitos e os serviços disponíveis — a Casa da Mulher Brasileira funciona 24 horas.”
Para que o Carnaval seja, de fato, um espaço seguro, Susan aponta o desafio central: mudar a mentalidade masculina. “Os homens precisam entender que não são donos dos nossos corpos. Nossos corpos, nossas regras.” Enquanto essa mudança não se consolida, mulheres seguem ocupando as ruas entre a alegria e a vigilância — e transformando, pouco a pouco, o silêncio em denúncia e a festa em um espaço de respeito.






















