Em uma cidade onde afetos dissidentes por muito tempo foram empurrados para a invisibilidade, iniciativas culturais protagonizadas por mulheres têm transformado a paisagem simbólica, convertendo silêncio em presença, e presença em festa.
É nesse cenário que o Forró Sapatão se apresenta não apenas como evento, mas como afirmação coletiva. Idealizado por mulheres que amam mulheres, o projeto nasce do desejo de criar um ambiente onde o afeto lésbico possa ser vivido em sua plenitude — sem olhares de julgamento, sem interrupções, sem medo. Mais do que dançar, trata-se de ocupar o espaço público com corpos que se reconhecem, se desejam e se celebram mutuamente.
A pista de dança, nesse contexto, ganha outro significado. Ao som do forró, do xote e do baião — ritmos tradicionalmente associados ao romance e ao encontro — o que se vê é uma reconfiguração das narrativas afetivas: casais de mulheres giram, riem, se abraçam e se conduzem ao compasso da zabumba, reafirmando que o amor também se escreve no feminino. O gesto simples de dançar juntas torna-se, assim, um ato político, capaz de romper barreiras e instaurar novas formas de pertencimento.
À frente da noite, a cantora Luciana Pinheiro conduz o Forró Sapatão Trio com um repertório que valoriza a tradição nordestina, enquanto a DJ Lenna Nunes amplia a experiência sonora, criando uma atmosfera de liberdade e conexão. Tudo isso dentro de uma proposta maior: transformar o espaço da festa em território de acolhimento, onde o amor entre mulheres não seja exceção, mas regra — não seja escondido, mas celebrado.
A escolha do nome “Forró Sapatão” reforça esse movimento de ressignificação. Termo por muito tempo utilizado como ofensa, “sapatão” é apropriado pelas organizadoras como símbolo de orgulho e identidade. Ao assumir a palavra, o evento não apenas confronta o preconceito, mas também constrói uma narrativa em que o amor entre mulheres é digno de visibilidade, respeito e alegria.
Integrado ao Cluber das Luluzinhas, o projeto amplia o protagonismo feminino na cena cultural ludovicense e reafirma que a arte pode ser ferramenta de transformação social. Em um estado que possui leis contra a discriminação por orientação sexual e LGBTfobia, a iniciativa ecoa como expressão viva desses direitos, materializando, na dança e no encontro, aquilo que muitas ainda lutam para viver plenamente no cotidiano.
O Forró Sapatão acontece nesta quinta-feira (30), véspera de feriado, a partir das 21h, no Dom Diego Gastrobar, no Centro Histórico. Os ingressos custam R$ 20. Mais do que uma festa, o evento convida: amar também é um ato de resistência — e, ali, ele ganha ritmo, corpo e voz.























