O ano virou e, em 120 minutos, o Brasil já tinha registrado seu primeiro feminicídio de 2026. Às 2h da manhã de 1º de janeiro, Bruna Aline Rodrigues de Souza, 27 anos, foi morta pelo ex-namorado, em Bom Repouso (MG), diante de crianças, inclusive seus filhos. Algumas horas depois, Eva Sophia Santos Silva, 16 anos, foi morta em São José dos Campos, num crime premeditado, em via pública, captado por câmeras. A cena se repete com uma crueldade didática: o agressor é quase sempre alguém íntimo; a arma é doméstica; o lugar pode ser a casa ou a rua; e o Estado chega tarde, quando chega.
A pergunta incômoda é simples: o que muda quando muda o ano? No Brasil, a resposta mais honesta costuma ser: nada. Porque feminicídio aqui não é “acidente” nem “fatalidade”. É resultado de um sistema que funciona ao contrário: falha na prevenção, falha na proteção, falha na responsabilização. E, quando falha, normaliza a morte como se fosse destino.
Os números não permitem autoengano. Em 2024, foram 1.492 feminicídios, recorde desde a criação da lei. Quatro mulheres por dia. A maioria morta por parceiros ou ex-parceiros, muitas dentro de casa, e com a arma mais banal do patriarcado: a faca. E mesmo o que deveria salvar vidas vira papel: houve mulheres mortas mesmo com medida protetiva, e um volume massivo de descumprimentos.
E há uma verdade que ninguém quer dizer em voz alta: deixar morrer é barato. Mais barato do que abrir delegacia 24h, manter abrigo, capacitar polícia e Judiciário, monitorar agressor, garantir renda e autonomia econômica, implementar sistema nacional de alerta e resposta rápida, financiar reeducação obrigatória. Quando a conta da omissão não vira custo político, a máquina continua.
Por isso, 2026 não começou com “surpresa”. Começou com continuidade. E nada muda enquanto feminicídio não for tratado como prioridade orçamentária, legislativa e executiva, e enquanto a sociedade não cobrar, nominalmente, de quem governa: cadê o sistema integrado? cadê as tornozeleiras e o monitoramento? cadê as delegacias 24h? cadê a prevenção nas escolas?
Bruna avisou que era ameaçada. Eva confiou que poderia andar na rua. Nenhuma delas deveria ter morrido. Honrar suas memórias não é com um minuto de silêncio, é com anos de pressão, política pública e mudança cultural. Porque 120 minutos foi o tempo que o Brasil levou para matar a primeira mulher de 2026. A pergunta que fica é: quanto tempo vai levar até a gente decidir que chega?























